Quando amanheceu o suor que molhava minhas roupas já havia secado e a lama, descascante, fazia minha pele coçar, meus cabelos negros eram castanhos-duros.
Àquela altura já não suportava a fome, mas o que mais incomodava de fato era a sede, eu poderia sentir o dobro daquela dor que sentia por um simples copo de água.
O desconforto dos pés descalços... Eu já imaginava o sofrimento que viria ao decorrer do dia, quando aqueles cascalhos que cobriam a estrada chegassem ao meio dia. A caminhada de volta não poderia durar muito mais.
Uma noite interminável confusa e cheia de lances que até agora não entendi. Parece que quando cheguei bem no início da tarde, eles já estavam à minha espera. Foi muita sorte minha, eu o detraído, ter percebido algo de errado assim que parei na entrada da garagem.
Pularam sobre o carro, eram vários, de todas as cores, com vários tipos diferentes de armas, uma verdadeira loucura, ficaram como carro, eu não sei como, fugi correndo, e parece que já haviam tomado a casa.
Fui perseguido, embrenhei-me no mato, o lamaçal engoliu meus sapatos, eles atiravam, as balas zuniam aos ouvidos. Não sei por quanto tempo os mantive longe, cansei-me, vários também cansados pararam, mas havia três, magros, altos, pretos e muito fortes que pareciam não se cansar nunca! Num tropeço caí, eles me cobriam pulando por cima de mim, tentavam me imobilizar, eram cordas e algemas, e eu de socos e mordidas.
Nunca fui esportista, atleta, ou mesmo forte, mas percebi que ali estava em jogo a minha vida, não sabia o porquê, mas sabia que aquela luta valia minha vida. Rolamos ali por bastante tempo, não sei o quanto, sei que foi muito.
Na briga quase morri, fui ferido na cabeça, no ombro, minha mão, quadril, minha coxa, meus braços pesados, um de meus algozes sumiu, fugiu, feriu-se não sei! Combati e fugi dos outros dois, eles falavam durante a perseguição e diziam um para o outro que não deviam mais me machucar, e que já pagariam caro pelo sangue que eu vertia, já me consideravam pego!
Jamais imaginei tamanho vigor em minhas pernas e braços, minha cabeça rodava no eixo do pescoço buscando um esconderijo, parecia impossível esconder-se apesar da mata fechada. Na correria cansada caí entre alguns arbustos, fiquei parado e a mata era molhada, galhosa, escondi-me ali, parado, com medo parado.
Ficaram à minha espreita, procuravam, diziam que eu não poderia ter ido muito longe, quando pude, subi em uma árvore, e passei para uma outra ao lado. Esperei e desci devagar ouvindo os soldados, quieto fugi das vozes.
Andei a outra metade da noite, saí em uma estrada do outro lado da mata, cascalho frio aos pés já não agüentava mais, nem sinal dos soldados pretos, então amanheceu.
Em meio a estas lembranças avisto minha casa. Ao contrário do que eu imaginei está intacta, temo um outro ataque surpresa, espiei por algum tempo sem chegar perto, portas e janelas do mesmo jeito que deixei na manhã de ontem: fechadas.
Assustado olho ao redor, de meu carro só os cacos dos vidro, e um rastro apressado para o além.
Em meus bolsos não tenho nada, a chave reserva da casa ainda está debaixo do vaso sem flores no quintal dos fundos. Com cuidado entro em casa, a dor, o sono, a fome, o frio, a sede e o medo acompanham-me e para mim nunca mais serão os mesmos depois desta noite de intimidade.
Chegando ao quarto estou eu, suando e rolando na cama, é um pesadelo. Paro, olho, não entendo, estou ali, e quando acordo e me olho no olho, desapareço.
"Um conjunto de versos pode dizer mais do que um livro inteiro e fala coisas à alma, ao coração e ao corpo, basta ficar nas pontas dos pés e se esticar para alcançá-las." Marcos Pedroso.
terça-feira, 13 de dezembro de 2005
terça-feira, 6 de dezembro de 2005
Amor & Ódio Amor
- você garantiu que me amava!
- não me cobre tanto assim, você sabe das minhas falhas.
- e te amo, o que podemos fazer para remediar isto?
- já está remediado, afinal o que não tem remédio...
- mas não posso acreditar... você sabe que nunca te cobrei...
- é verdade...
-... então, mas e as promessas que me fez?
- não menti.
- aquilo tudo que me prometeu? onde foi parar?
- aquilo era verdade pra mim também!
- o que houve? não entendo!
- não chore, vá piorar o que já é difícil!
- não, não vai me deixar aqui assim... não vou deixar.
- acalme-se.
- existe outro alguém? não importa, não vou ficar assim.
- não há ninguém. acalme-se, pare de gritar, o que é isso?
(surge uma tesoura da gaveta da mesinha de cabeceira)
- não vai ficar assim, já disse. me perdoe te amo.
- acalme-se e pare com isso, par...
(enterra-lhe a tesoura na barriga).
terça-feira, 29 de novembro de 2005
O texto que não sai
Buscava um tema fácil, atraente, e forte.
Que prendesse a atenção,
Transmitisse uma mensagem diferente por leitor.
Que não fixasse juízos ou valores.
Simples, não simplista.
Que fosse mínimo, econômico; sucinto.
Com a objetividade de uma sigla.
A eficácia de um verbete.
Contendo história e poesia
Literatura e ciência
O velho sendo dito como novo!
Não posso, não sai.
- As musas morreram.
As musas morreram?
Que prendesse a atenção,
Transmitisse uma mensagem diferente por leitor.
Que não fixasse juízos ou valores.
Simples, não simplista.
Que fosse mínimo, econômico; sucinto.
Com a objetividade de uma sigla.
A eficácia de um verbete.
Contendo história e poesia
Literatura e ciência
O velho sendo dito como novo!
Não posso, não sai.
- As musas morreram.
As musas morreram?
terça-feira, 22 de novembro de 2005
O gigante Adamastor e os brasileiros
Acordei pesado, lento como um trem de ferro, mas de ferro só no peso e na rudeza. Movimentos pesados pensamentos pesados enferrujados, enferrados, ferrados.
Levantei-me como quem deita, saí pensando no voltar. Arrastando-me pelas ruas, indo automático, tentei justificar minha condição com alguns pensamentos.
Saúde, tenho saúde, uma saúde física relativamente boa, estável, pensei então em quem não a tem... O medo. Hoje tenho um trabalho, exerço minhas funções, que ao menos para mim, são relevantes. Senti medo, medo do desemprego...
Descasquei o sentimento, fui à palavra:
me.do
(ê) (lat metu) sm 1 Sentimento de grande inquietação diante de um perigo real ou imaginário, de uma ameaça; pavor, temor, terror. 2 Receio.
re.cei.o
(de recear) sm 1 Incerteza ou hesitação, acompanhada de temor. 2 Apreensão, angústia.
a.pre.en.são
(lat apprehensione) sf 1 Ato ou efeito de apreender. 2 Ação de retirar pessoa ou coisa do poder de alguém, por medida policial ou mandado judiciário. 3 Preocupação, receio, temor. 4 Compreensão, percepção.
an.gús.tia
(lat angustia) sf 1 Espaço reduzido; estreiteza. 2 Aflição, sofrimento.
a.fli.ção
(lat afflictione) sf 1 Ansiedade, inquietação. 2 Padecimento físico; tormento, tristeza.
(e percebi que desta forma não acabaria nunca).
Da palavra passei pela idéia, pelo conceito cheguei à essência, pelo menos naquele momento.
Motivos para ter medo: Morte, violência, necessidade, solidão, multidão! Ser feliz, medo da felicidade, do amor, medo de que as coisas dêem certo.
Há muito pouco fomos levados a acreditar, sob a batuta de um sagaz marqueteiro, que o povo brasileiro, até então, tinha medo de ser feliz – que hora ingrata, meu Deus!
Votamos na promessa de virada, votamos na esperança, subiu ao poder a equipe do bem, com um histórico de lutas proletárias respeitável, culminando com o episódio da posse e a declaração de que o primeiro diploma da vida do eleito era exatamente aquele de presidente dado pelo povo, e entregue com pompa e circunstância pelo TRE. Nosso pobre país mal sabia!
E fazendo outra volta, o medo, o sentindo da D. Regina Duarte do Restelo, aquele medo agourento que poderia passar em branco como apenas mais uma arma de campanha eleitoral, se não estivéssemos enfrentando o medo generalizado de hoje. – Quem é inocente? Esta deveria ser a pergunta de todas as CPIs.
Pois bem, este medo, que ao menos para D. Regina do Restelo não passou, já está aí, já ou ainda? Ameaçando como fez Adamastor a Vasco e suas naus.
Eis que o gigante Adamastor está aí, urrando e babando pelo que o povo criou até agora, ameaçando nossa frágil estabilidade, pequena, frágil mas toda nossa, nossa moeda, nossa economia, nossa balança comercial, nossa salário mínimo, nossa inflação.
Esta ameaça, que pode, se confirmada, acabar com tudo que a duras penas conseguimos, tudo que foi comprado com nosso suor!
Trabalho árduo, olho no governo, e quem sabe este Adamastor não se revele apenas um vento, que ao passar vai levar a poeira e a sujeira.
Oxalá, meu Deus!
Levantei-me como quem deita, saí pensando no voltar. Arrastando-me pelas ruas, indo automático, tentei justificar minha condição com alguns pensamentos.
Saúde, tenho saúde, uma saúde física relativamente boa, estável, pensei então em quem não a tem... O medo. Hoje tenho um trabalho, exerço minhas funções, que ao menos para mim, são relevantes. Senti medo, medo do desemprego...
Descasquei o sentimento, fui à palavra:
me.do
(ê) (lat metu) sm 1 Sentimento de grande inquietação diante de um perigo real ou imaginário, de uma ameaça; pavor, temor, terror. 2 Receio.
re.cei.o
(de recear) sm 1 Incerteza ou hesitação, acompanhada de temor. 2 Apreensão, angústia.
a.pre.en.são
(lat apprehensione) sf 1 Ato ou efeito de apreender. 2 Ação de retirar pessoa ou coisa do poder de alguém, por medida policial ou mandado judiciário. 3 Preocupação, receio, temor. 4 Compreensão, percepção.
an.gús.tia
(lat angustia) sf 1 Espaço reduzido; estreiteza. 2 Aflição, sofrimento.
a.fli.ção
(lat afflictione) sf 1 Ansiedade, inquietação. 2 Padecimento físico; tormento, tristeza.
(e percebi que desta forma não acabaria nunca).
Da palavra passei pela idéia, pelo conceito cheguei à essência, pelo menos naquele momento.
Motivos para ter medo: Morte, violência, necessidade, solidão, multidão! Ser feliz, medo da felicidade, do amor, medo de que as coisas dêem certo.
Há muito pouco fomos levados a acreditar, sob a batuta de um sagaz marqueteiro, que o povo brasileiro, até então, tinha medo de ser feliz – que hora ingrata, meu Deus!
Votamos na promessa de virada, votamos na esperança, subiu ao poder a equipe do bem, com um histórico de lutas proletárias respeitável, culminando com o episódio da posse e a declaração de que o primeiro diploma da vida do eleito era exatamente aquele de presidente dado pelo povo, e entregue com pompa e circunstância pelo TRE. Nosso pobre país mal sabia!
E fazendo outra volta, o medo, o sentindo da D. Regina Duarte do Restelo, aquele medo agourento que poderia passar em branco como apenas mais uma arma de campanha eleitoral, se não estivéssemos enfrentando o medo generalizado de hoje. – Quem é inocente? Esta deveria ser a pergunta de todas as CPIs.
Pois bem, este medo, que ao menos para D. Regina do Restelo não passou, já está aí, já ou ainda? Ameaçando como fez Adamastor a Vasco e suas naus.
Eis que o gigante Adamastor está aí, urrando e babando pelo que o povo criou até agora, ameaçando nossa frágil estabilidade, pequena, frágil mas toda nossa, nossa moeda, nossa economia, nossa balança comercial, nossa salário mínimo, nossa inflação.
Esta ameaça, que pode, se confirmada, acabar com tudo que a duras penas conseguimos, tudo que foi comprado com nosso suor!
Trabalho árduo, olho no governo, e quem sabe este Adamastor não se revele apenas um vento, que ao passar vai levar a poeira e a sujeira.
Oxalá, meu Deus!
quarta-feira, 16 de novembro de 2005
Paz
Buscar a paz, precisamos de paz, muito mais do que a simples ausência de guerras ou conflitos, ou a sensação de segurança nas cidades, além de dinheiro a vontade, e saúde para dar e vender.
Ao que me refiro é muito mais do que a boa convivência com as pessoas, com a sociedade e com as necessidades da vida.
É a paz superior, algo de si consigo mesmo. Só há uma fonte para esta paz. E você pode já imaginar!
Verdadeira, que supera todo entendimento, real, que vai além da guerra, que perdura mesmo com a violência ou necessidade. Sobrenatural assim!
Esta deve ser nossa meta.
* Este texto garimpei em minha agenda, e data do primeiro bimestre deste ano. Sem muito mais o que disser, depois deste feriado maluco, não sei o que comemoramos nesta república que dá aposentadoria de mais de oito mil reais para caras como o tal Roberto Jefferson! Azedei!
Ao que me refiro é muito mais do que a boa convivência com as pessoas, com a sociedade e com as necessidades da vida.
É a paz superior, algo de si consigo mesmo. Só há uma fonte para esta paz. E você pode já imaginar!
Verdadeira, que supera todo entendimento, real, que vai além da guerra, que perdura mesmo com a violência ou necessidade. Sobrenatural assim!
Esta deve ser nossa meta.
* Este texto garimpei em minha agenda, e data do primeiro bimestre deste ano. Sem muito mais o que disser, depois deste feriado maluco, não sei o que comemoramos nesta república que dá aposentadoria de mais de oito mil reais para caras como o tal Roberto Jefferson! Azedei!
terça-feira, 8 de novembro de 2005
Fim
Mil imagens na cabeça dentro de um segundo.
Sons, cheiros, gostos, tatos, sentimentos.
Tantos toques.
Hoje sinto falta da saudade!
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