quarta-feira, 20 de março de 2013

Simplificando

Com o passar do tempo
e o constante aparelhar-se
em que nos metemos
mais e mais, especializados
em tudo e em nada também

Quanto mais a gente sabe
neste fluxo sem fim
informações, notícias e dados
descobertas, magia, estudos
e outras inutilidades


A mente exercitada ao limite
fortalecida e nutrida com esmero
acaba por tomar proporção
desproporcional à sua importância
reduzindo assim a musculatura do espírito

Então a alma, única em nós
a ratificar-nos como humanos
atrofiada, esquecida nesta omissão
pensa no porquê é que ainda existe
se existe, o coração

E no papel em que foi colocada
a mente cada vez mais
inteligentemente burra
esquece de primeira como é
que se simplifica uma vida

quarta-feira, 13 de março de 2013

Areia de Sonho



Há muito tempo, um tempo
que o Tempo já se esqueceu
quando eu era criança
amigo íntimo da felicidade
morava numa cidade chamada Sonho

Lá havia praias de areia branca
muito branca e muito fina
a areia de Sonho
confortável areia minha

Antes de partir, talvez sabendo
o que o destino me reservava, não sei
tomei um pouco da areia branca
e fiz a ampulheta de uma vida

Ampulheta da branca areia de Sonho

Objeto pequenino a correr parado
que me socorre e me salva
a passar os grãos devagar
e me redimir a dor que não passa
e aplacar a saudade implacável

Os grãos brancos da areia de Sonho

Sonho me ensinou já na infância
a não temer nada nesse mundo
mas hoje meu único medo
é o maior medo desse mundo

Tenho medo da ampulheta se quebrar

quarta-feira, 6 de março de 2013

Querer sempre

Ás vezes eu não caibo em mim
Nem sei bem se sou eu mesmo
ou se aquilo que não cabe
é só o que sinto aqui
Eu sinto aqui fundo e forte

É o mais profundo mar
O mais impetuoso vento, ondas e velas
e portas a bater e cortinas a voar
A areia e as pás do moinho
a assobiar e zunir em mim assim


Sinto cá comigo, tanto que nem sei!
E enlouqueço explodo e implodo em mim
quieto ou não mas quieto sim
pois é o que me resta, restou
é como estou, como sou

Assim como quem não quer nada
Querer? Sempre!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Acordo



Fica então combinado entre nós acertado
como se fosse de alguma forma
pré determinado um destino
como que escrito na pedra agora coberta pelo limo
tecido aos poucos pelo caprichoso tempo

Nosso acerto dita pois que mesmo antes
de nos conhecermos, muito tempo
se é que o tempo entra nessa conta
antes, bem antes já nos conhecíamos
e quando encontra-mo-nos isso tudo já havia
e já havia há muito, tanto que nem sei

Se foi in medias res esse nosso encontro
que encontrou uma amizade começada
e se já iniciou-se assim começada
há de continuar mesmo depois de terminada

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Contudo



Como o dia nasce assim sem querer
Como que de surpresa me veio, já sabendo
Uma lembrança muito clara à minha frente
Um pensamento de cristal que refletiu o quadro
Onde a gente se beijava e era feliz
Apesar do tempo

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Reticências...



A vida se escreve em reticências
Entre um ponto e outros nós
Festival de definitudes
Em formação indiana
Quem puxa a fila é Ele: o Tempo
Marcando a marcha
Do jeito particular todo dele
Trotando a pisar o vento
Sem deixar espaço pra vacilos
Não aceita arrependimentos
Por enquanto isso
A vida assiste impassível
Como quem aguarda pelo final ansiosa
Onde (quando) tudo se resolve
Pela dor ou através do prazer não importa
O acordo mais bem amarrado
A Vida, o Tempo, a Dor e o Prazer